Enquanto isto, um dos homens da embaixada, que certamente falava grego, trocava umas palavras com Euríalo perguntando se o jovem sentado diante da tenda com o manto vermelho nos ombros era o rei Alexandre. Ao receber uma resposta afirmativa, aproximou-se trazendo consigo o resto do séqüito. Dava para reconhecer de imediato, entre eles, o homem mais importante: um ancião de estatura mediana, de barba longa e bem cuidada, com a cabeça coberta por uma mitra rígida e um peitoral enfeitado com uma dúzia de pedras coloridas. Foi o primeiro a falar e a sua língua, ao mesmo tempo gutural e harmoniosa, sincopada e cheia de aspirações, pareceu aos ouvidos de Alexandre muito similar à dos fenícios.
- Que o Senhor te proteja, grande rei - traduziu o intérprete.
- De que senhor está falando? - perguntou Alexandre, cuja curiosidade fora despertada por aquelas palavras.
- Do Senhor nosso Deus, o Deus de Israel.
- E por que deveria o seu deus proteger-me?
- Ele já o fez - respondeu o velho - permitindo que saísse incólume de
tantas batalhas para chegar até aqui e destruir a blasfêmia dos samaritanos.
Alexandre sacudiu a cabeça como se as palavras do intérprete não tivessem sentido algum para ele.
- O que é uma blasfêmia? - perguntou. Mas naquela mesma hora percebeu uma mão que se apoiava em seu ombro. Virou-se e viu Aristandro envolvido em seu manto branco e com uma estranha expressão no olhar.
- Respeite esse homem - sussurrou-lhe no ouvido. - O seu deus é sem dúvida um deus poderoso.
- A blasfêmia - continuou o intérprete - é um ultraje a Deus. E os samaritanos tinham construído um templo no monte Gariâni. Aquele que, com a ajuda do Senhor, acabou de destruir.
- E era essa a... blasfêmia?
- Era.
- Por quê?
- Porque só pode haver um único templo.
- Um único templo? - perguntou o rei, pasmo. - No meu país temos centenas deles. Aristandro pediu permissão para falar com o velho de barba branca:
- Como é esse templo? - perguntou.
O velho começou a falar com voz inspirada e o intérprete traduziu:
- O templo é a casa do nosso Deus, o único que existe, o criador do céu e da terra, do visível e do invisível. Ele libertou os nossos antepassados escravos no Egito e entregou-lhes a Terra Prometida. Durante muitos anos Ele morou numa tenda na cidade de Silo até que o rei Salomão ergueu para Ele um templo reluzente de ouro e de bronze na fortaleza de Síon, a nossa cidade.
- E qual é a sua aparência? - perguntou Aristandro. - Tem contigo alguma imagem para mostrar?
Logo que ficou a par do pedido, o velho fez uma careta desgostosa e respondeu secamente:
- O nosso senhor não tem aparência, e o uso de imagens é uma proibição absoluta. A imagem do nosso Senhor está em toda parte: nuvens do céu e nas flores do campo, no canto dos pássaros e no murmúrio do vento entre a ramagem das árvores.
- Mas, sendo assim, o que há no seu templo?
- Nada que olho humano possa ver.
- E quem é você, então?
- Sou o sumo sacerdote. Eu apresento ao Senhor as preces do seu povo e só a mim cabe, uma vez por ano, pronunciar o Seu nome nos mais íntimos penetrais do santuário. E quem é você, se posso perguntar?
O rei olhou alternadamente para os dois interlocutores e então disse:
- Quero ver o templo do seu deus.
Logo que entendeu o sentido das palavras do rei, o velho sacerdote caiu de joelhos, prostrado com a testa no chão, suplicando-lhe que não fizesse tal coisa:
- Peço que não profane o nosso santuário. Ninguém a não ser os circuncisos, ninguém que não pertença ao Povo dos Escolhidos por Deus pode entrar no templo e eu tenho o dever de impedi-lo, mesmo que o preço seja a minha vida.
Como acontecia toda vez que não lhe satisfaziam a vontade, o rei estava a ponto de mostrar a sua cólera, mas Aristandro acenou para que controlasse a sua zanga ciciando mais uma vez no seu ouvido:
- Respeite este homem que está pronto a dar a sua vida por um deus sem rosto, que não está disposto a mentir nem a bajular-te. Alexandre ficou pensando em silêncio por alguns instantes, depois falou de novo com o velho de barba branca:
- Respeitarei o seu desejo, mas quero de você uma resposta em troca.
- Qual? - perguntou o velho.
- Disse que o aspecto do único deus está nas nuvens do céu, nas flores do campo, no canto dos pássaros, no murmúrio do vento, mas o que há do seu deus no ser humano?
O velho respondeu:
- Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, mas em alguns homens a imagem de Deus é como que obscurecida e distorcida pelos seus atos. Em outros, resplandece como o sol ao meio-dia. você é um destes homens, grande rei.
Dito isto, deu as costas e voltou para o lugar de onde tinha vindo.
in: MANFREDI, Valerio Massimo. Os Confins do Mundo. Cap 25. Rocco
É só um ensaio.

"Não vos assombreis, nem temais; porventura desde então não vo-lo fiz ouvir, e não vo-lo anunciei? Porque vós sois as minhas testemunhas. Porventura há outro Deus fora de mim? Não, não há outra Rocha que eu conheça." Isaías 44-8

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