sábado, 2 de abril de 2011

Alexandre Magno após conquistar o Egito

Enquanto isto, um dos homens da embaixada, que certamente falava grego, trocava umas palavras com Euríalo perguntando se o jovem sentado diante da tenda com o manto vermelho nos ombros era o rei Alexandre. Ao receber uma resposta afirmativa, aproximou-se trazendo consigo o resto do séqüito. Dava para reconhecer de imediato, entre eles, o homem mais importante: um ancião de estatura mediana, de barba longa e bem cuidada, com a cabeça coberta por uma mitra rígida e um peitoral enfeitado com uma dúzia de pedras coloridas. Foi o primeiro a falar e a sua língua, ao mesmo tempo gutural e harmoniosa, sincopada e cheia de aspirações, pareceu aos ouvidos de Alexandre muito similar à dos fenícios.
- Que o Senhor te proteja, grande rei - traduziu o intérprete.
- De que senhor está falando? - perguntou Alexandre, cuja curiosidade fora despertada por aquelas palavras.
- Do Senhor nosso Deus, o Deus de Israel.
- E por que deveria o seu deus proteger-me?
- Ele já o fez - respondeu o velho - permitindo que saísse incólume de
tantas batalhas para chegar até aqui e destruir a blasfêmia dos samaritanos.
Alexandre sacudiu a cabeça como se as palavras do intérprete não tivessem sentido algum para ele.
- O que é uma blasfêmia? - perguntou. Mas naquela mesma hora percebeu uma mão que se apoiava em seu ombro. Virou-se e viu Aristandro envolvido em seu manto branco e com uma estranha expressão no olhar.
- Respeite esse homem - sussurrou-lhe no ouvido. - O seu deus é sem dúvida um deus poderoso.
- A blasfêmia - continuou o intérprete - é um ultraje a Deus. E os samaritanos tinham construído um templo no monte Gariâni. Aquele que, com a ajuda do Senhor, acabou de destruir.
- E era essa a... blasfêmia?
- Era.
- Por quê?
- Porque só pode haver um único templo.
- Um único templo? - perguntou o rei, pasmo. - No meu país temos centenas deles. Aristandro pediu permissão para falar com o velho de barba branca:
- Como é esse templo? - perguntou.
O velho começou a falar com voz inspirada e o intérprete traduziu:
- O templo é a casa do nosso Deus, o único que existe, o criador do céu e da terra, do visível e do invisível. Ele libertou os nossos antepassados escravos no Egito e entregou-lhes a Terra Prometida. Durante muitos anos Ele morou numa tenda na cidade de Silo até que o rei Salomão ergueu para Ele um templo reluzente de ouro e de bronze na fortaleza de Síon, a nossa cidade.
- E qual é a sua aparência? - perguntou Aristandro. - Tem contigo alguma imagem para mostrar?
Logo que ficou a par do pedido, o velho fez uma careta desgostosa e respondeu secamente:
- O nosso senhor não tem aparência, e o uso de imagens é uma proibição absoluta. A imagem do nosso Senhor está em toda parte: nuvens do céu e nas flores do campo, no canto dos pássaros e no murmúrio do vento entre a ramagem das árvores.
- Mas, sendo assim, o que há no seu templo?
- Nada que olho humano possa ver.
- E quem é você, então?
- Sou o sumo sacerdote. Eu apresento ao Senhor as preces do seu povo e só a mim cabe, uma vez por ano, pronunciar o Seu nome nos mais íntimos penetrais do santuário. E quem é você, se posso perguntar?
O rei olhou alternadamente para os dois interlocutores e então disse:
- Quero ver o templo do seu deus.
Logo que entendeu o sentido das palavras do rei, o velho sacerdote caiu de joelhos, prostrado com a testa no chão, suplicando-lhe que não fizesse tal coisa:
- Peço que não profane o nosso santuário. Ninguém a não ser os circuncisos, ninguém que não pertença ao Povo dos Escolhidos por Deus pode entrar no templo e eu tenho o dever de impedi-lo, mesmo que o preço seja a minha vida.
Como acontecia toda vez que não lhe satisfaziam a vontade, o rei estava a ponto de mostrar a sua cólera, mas Aristandro acenou para que controlasse a sua zanga ciciando mais uma vez no seu ouvido:
- Respeite este homem que está pronto a dar a sua vida por um deus sem rosto, que não está disposto a mentir nem a bajular-te. Alexandre ficou pensando em silêncio por alguns instantes, depois falou de novo com o velho de barba branca:
- Respeitarei o seu desejo, mas quero de você uma resposta em troca.
- Qual? - perguntou o velho.
- Disse que o aspecto do único deus está nas nuvens do céu, nas flores do campo, no canto dos pássaros, no murmúrio do vento, mas o que há do seu deus no ser humano?
O velho respondeu:
- Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, mas em alguns homens a imagem de Deus é como que obscurecida e distorcida pelos seus atos. Em outros, resplandece como o sol ao meio-dia. você é um destes homens, grande rei.
Dito isto, deu as costas e voltou para o lugar de onde tinha vindo.

in: MANFREDI, Valerio Massimo. Os Confins do Mundo. Cap 25. Rocco

É só um ensaio.

"Não vos assombreis, nem temais; porventura desde então não vo-lo fiz ouvir, e não vo-lo anunciei? Porque vós sois as minhas testemunhas. Porventura há outro Deus fora de mim? Não, não há outra Rocha que eu conheça." Isaías 44-8

O Salário dos Atores

Um dos grandes problemas das igrejas cristãs atuais é a "Síndrome do Irmão Mais Velho". Imagine dois irmãos em um parque de diversões: Durante vários anos o irmão mais velho esperou crescer para poder ir no tal brinquedo e quando finalmente chega à idade de poder brincar, o parque resolve tirar a restrição, e o irmão mais novo TAMBÉM iria poder brincar. O irmão mais velho fica então indignado, pois isso não parecia justo, porque ele já estava ali faz tanto tempo esperando, fielmente.
Se soa familiar, é só ler o capítulo 20 do Evangelho de Mateus.
Muitos cristãos, principalmente de igrejas mais tradicionais, se esforçam para levar a mensagem da cruz adiante, por diversos motivos (sim existem até motivações erradas). Mas Deus toca no coração do ouvinte, que se torna concidadão daquela igreja. Tudo conforme a grande comissão.
Mas é aí que o irmão sente que seu lugar está sendo tomado por uma vida cristã mais fresca e vigorosa, e percebe que o irmão mais novo vai "tomar" o "seu" ministério, que ele nasceu no meio eclesiástico, e que ele merece estar ali.
Durante esses anos, tenho percebido porque as igrejas recém criadas são mais eficazes em quantidade de membros. Simples. Não há irmãos mais velhos (Não que isso seja ideal).
Os reformadores lutaram anos a fio para elevar o estandarte do Sacerdócio Universal do cristão, e muitos irmãos mais velhos se tornam preguiçosos na fé, e fica mais fácil adorar as tradições e mesmismos. É só um ensaio.


"...Estes derradeiros trabalharam só uma hora, e tu os igualaste conosco, que suportamos a fadiga e a calma do dia. Mas ele, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço agravo; não ajustaste tu comigo um dinheiro? Toma o que é teu, e retira-te; eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti.
Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom? Assim os derradeiros serão primeiros, e os primeiros derradeiros; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos."